13 de set de 2010

Perguntas aos que creêm na vontade do homem*

Spurgeon certa feita, legando-nos o seu último sermão, acertadamente disse:


“Parece extremamente absurdo pensarmos em pregar qualquer outra coisa que não seja a Palavra de Deus. No entanto, enfrentamos uma geração de homens que estão sempre a querer descobrir, para suas igrejas, um novo estimulante e um novo evangelho. A colcha de suas camas parece não ser suficientemente longa, e eles não hesitariam em pedir emprestado um ou dois metros de linho ou lã aos ecumênicos, aos agnósticos ou até mesmo aos ateístas” [1]

Eis o que tem acontecido em redutos eclesiais (onde se concentra maior ignorância, devido ao abandono da Escritura) e em redutos teologais (onde a interpretação sadia das escrituras, tem sido preterida por uma visão mais existencialista, aferida pela circunstacialidade do mundo, e nunca do texto sagrado). Muitos tem se valido de outras ciências misturadas com pitadas de filosofias, para explicar as doutrinas cristãs.

Como resultado, o que temos não é uma interpretação decorrida tão somente do texto e a ele submetido, mas sim insights travestidos de “sagrado”, banalizando a voz da Escritura, que por si só, dita a verdade inamovível de Deus e a esta o cristão deve submeter-se, inegociavelmente, mesmo que por meio da luz da escritura obscureçam-se intenções que a despeito de serem motivadas por um predisposto desejo de resolver o problema, onde tudo e todos são beneficiados. Pois os mesmos não funcionam. Isso porque quem dita as leis é Deus e não o homem passando-se como um deus a levianamente recorrer a sua impiedade, sua engenhosidade filosófica e sentimentalmente concebida, para resolver os problemas da vida.
Nesse emaranhado de pontos de vistas, cristãos são tentados a congratularem-se com afirmações que resolvam impasses de forma pragmática e rápida. Como exemplo, analise a resposta apresentada a seguir que comumente é evocada para tentar argumentar contra a eleição Incondicional de Deus: 

Deus é amor e não é injusto. 

Essa declaração fundamenta-se em quê? Como o interpelador da Eleição chegou a essa conclusão, foi pelo escrutínio da Escritura, mediante evidências sobejas, levando-se em consideração como, por exemplo, o fato de que Deus por vezes, feriu povos estranhos em razão de seu zelo, por sua nação eleita, Israel? Levou-se em conta a justiça de Deus que soberanamente pode, caso queira, como ele o quer, pois já prometeu que assim o fará, dar ao homem sua justa punição pois é digno de merecê-la? O que é amor, não do ponto de vista humano, mas sim divino?

Para que tais perguntas sejam respondidas, precisa-se recorrer ao arsenal da Igreja, a Santa palavra de Deus, pois é por meio dela, e unicamente nela, que Deus proveu respostas as mais contundentes perguntas do ser humano mesmo que não lhe agrade as respostas que serão obtidas, sobretudo, é nela que encontramos o parecer de Deus, a voz de Deus. Nela encontramos nosso Deus a bradar aos homens, exigindo-lhes os mandamentos, e julgando-os para a sua Glória. Na Bíblia certificamo-nos de como Deus concebeu o mundo e como Ele desejou governar esse mundo.

Em razão dessa questão crucial, propus por meio desse artigo, apresentar algumas perguntas, especificamente sobre o livre arbítrio neutro, ou como proposto com sucesso por  McGregor  Wright “a liberdade da indiferença”[2]. Há uma compreensão humanística a circundar os redutos acima apresentados, baseada em experiências, circunstâncias, acontecimentos, tragédias, intercorrência de contingências, mas nunca, na voz de Deus a ressoar em sua Palavra. À parte das bases acima, ilegítimas, e anelando a coerência bíblica como crivo de nossa afirmação, as perguntas abaixo insurgirão como uma muralha intransponível a compreensão adulterada da responsabilidade humana, cunhada pelos “ismos” do mundo, e da compreensão meramente humana para essas questões. As perguntas abaixo não se constituem numa defesa bem preparada para opor-se ao livre arbítrio, mas conoto-as como pedras a se interporem no caminho do arminiano, impedindo-o que leve a cabo sua compreensão, sem que antes atente-se com preocupação a elas, no afã de bem respondê-las a luz da argumentação bíblica. Não estou preocupado com liberais, teólogos relacionais ou do processo, pois estes já despiram a Escritura de sua proeminência, não recorrendo mais a ela para amparar suas crendices. Dirijo-me aos arminianos, pois estes dizem e de fato acredito, crer na inspiração plena e verbal da Escritura. Segue-se:

·         Se nós somos pecadores, propensos ao pecado, incapazes de pugnarmos para a nossa salvação, inaptos a produzirmos a luz por meio da fonte de nosso ser que é o nascedouro de toda sorte de pecados (Mt 15.19), e já que de tal fonte, que é inerentemente má, em decorrência da natureza herdada, não lhe seja possível produzir o bem, tal como não é possível a uma fonte de águas amargas, verter a mais límpida e doce água, de onde vem o desejo de abdicarmos de nossa pecaminosidade intrínseca para servir a Deus, de modo que, Deus não tenha participação primeira em tal desejo, a fim de que seja do homem o primeiro passo, tal como é propalado pelos que acreditam ser do homem a primeira ação na salvação, enumerando a de Deus como uma segunda ação correspondente? Pois para que seja provada a realidade de um suposto livre arbítrio, precisa-se provar, biblicamente, como se dá a insurreição do pecador a contrapor-se a sua natureza, distando-se e alienando-se dela, pela sua própria conta, praticando uma ação a qual não corresponde a sua própria natureza, o que por sua vez significa que seja possível brotar a pureza da impureza (Jó 14.4), sem que Deus tenha precedência em tal ação por meio da qual seria assim tal homem capacitado? Enfim, hipoteticamente falando, segundo essa forma de compreender a salvação, o homem precisa anteceder a Deus na ação regeneradora, do contrário não existe livre arbítrio, pois se Deus age primeiro, então se conclui que o homem é incapaz de por si só agir. E se for assim, não lhe é possível ser o que é, e ter a capacidade de transitar nos caminhos da bondade. Se Jesus diz que sem ele nada se pode fazer (Jo 15.5), como relacionar o suposto livre arbítrio com tal declaração? O que o homem, segundo os proponentes do livre arbítrio, pode fazer sem Jesus, ou, antes de Jesus?

·         Como é possível não ser salvo pelas obras, sendo do homem o primeiro passo rumo à concretização de sua salvação? Se não é pelas obras, como seria possível conciliar esse querer antecedente do homem com a declaração de Paulo quando diz que “Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade” (Fp 2.13)? Qual a diferença, onde e quando se dá o querer do homem aliado ao querer de Deus embora independente deste, sem que o versículo acima seja negado, ou seja, se Deus opera o querer, onde entra em tal processo o querer do homem neutra e autonomamente produzido pelo seu anseio unilateralmente engendrado à parte daquele que segundo diz a Escritura, advêm toda bondade e dom perfeito? (Tg 1.17)? Tudo isso, sem que a salvação não se dê pela via meritória das obras, redundando em uma compreensão coerente com a salvação que é pela fé?

·         Se a salvação é pela fé e não pelas obras, isso significa dizer que somos salvos apesar de nossas más obras. Sim, porque, se não somos salvos pelas obras, é porque tais obras são moralmente incapazes de favorecer-nos no processo que se conduz a nossa salvação. Pois bem, se não é pelas obras, então não há entre os homens já salvos, um que possa se gloriar por ter sido salvo, posto que se o foi, não o foi porque quis, e sim porque foi alcançado, e se essa é a verdade que se depreende das Escrituras, como posso responsabilizar o homem por um suposto primeiro passo, por meio do qual se inicia a salvação, sem que mine contra essa verdade bíblica, de que o homem é salvo por meio da fé? Se o que é nascido da carne é carne (Jo 3.3), logo entendemos que quaisquer obras dignas de arrependimento, não serão produzidas pela força da carne, já que da carne emerge-se tão somente a carnalidade; tão é sua finitude e ineficácia quanto ao que é bom que, para que produza o bem, lhe é necessário nascer do Espírito. Dessa forma, é possível a carne, produzir obras de competência do Espírito?

·         Se Jesus veio salvar o que estava perdido, e se esse perdido, como consta em Is 53.6, desgarrava-se para o inóspito mundo das trevas, distando-se do reduto da luz, como pode esse perdido se julgar capaz de, eventualmente, olhar para o Deus que se propôs a salvá-lo? Se esse homem, que é pecador, distanciava-se do aprisco do Pastor que desejou buscá-lo, como compreender a alegação de que se tal homem quiser abandonar o pecado, dando-se por conta de quão lhe é prejudicial afastar-se do sumo Pastor, recorrendo ao seu discernimento nato para compreender que a luz é melhor do que as trevas e olhar para Deus, ele conseguirá assim o fazer? Gostaria de saber como isso pode ser possível, sem que esse querer olhar para Deus sobrevenha de Deus, pois se dele vier, Deus o capacitou para assim o fazer, e se assim for, não há como provar livre arbítrio algum. Se Deus capacita, então é porque o alvo de sua capacitação é incapaz de se autocapacitar. Ainda, se “nossa capacidade vem de Deus(2 Co 3.5), razão pela qual se infere que não somos capazes de por nós mesmos, pensar em alguma coisa de natureza divina, em qual sentido ou natureza, a luz de prova bíblica, a condizer com esse texto, o homem é capaz de fazer alguma coisa?

·          Se Deus não imputou á nos a nossa injustiça, mas sim a justiça de Cristo (2 Co 5.18,20), por meio da qual somos aceitos por Deus, como conciliar tal declaração com a que se alega que cabe ao homem o cumprimento de sua parte nos passos de sua salvação, manifestando assim, justiça própria, posto que será dele? Como é possível dizer que o homem é salvo pelos méritos de Cristo na cruz, e ao mesmo tempo afirmar que está no homem a capacidade de fazer tudo o que Deus lhe exige a fim de que, após iniciado pelo homem a regeneração, por meio de sua justiça, Deus seja compelido a concluir aquilo que o homem iniciou?

·         Se o homem não entende as coisas do Espírito (2 Co 2.14), então como ele seria apto para lograr sua salvação, laborando-a por meio de esforços que lhe seriam porventura apropositados? Se não é possível ao que nasce de mulher ser justo (Jó 25.4), e sendo a justiça o fator preponderante para o perdão de Deus, como explicar o fato de o pecador ser perdoado? Se o que é necessário para o perdão, o homem está para aquém de alcançar, como ele alcançou? Porque quis? Como quis se não pode produzir o que deveria ter para então ser? Se Deus prova o seu amor para conosco morrendo por nós, sendo nós ainda pecadores, como pode Ele estar esperando que este homem diga o sim que Deus esteja esperando para agir?Se “A alma do ímpio deseja o mal” (Pv 21.10), como posso provar que, caso ele queira também poderá desejar o bem?

·         Se o que o olho não viu, ouvido não ouviu, e não subiu ao coração do homem Deus pelo Espírito no-las revelou (2 Co 2.9), como é possível insurgir-se contra esse texto, dando capacidade ao olho do homem para ver, dizer que seus ouvidos são inerentemente sensíveis ao ribombar da voz de Deus à chamá-lo, bastando-lhe assim querer, despertando a sua capacidade, ainda latente, e ousar afirmar que lhe seja possível, por meio de seu coração, desejar a Deus, sem a revelação do espírito a antecedê-lo?

·         Se a fé vem pelo ouvir a palavra de Deus (Rm 10.17), e sendo a fé o instrumento por meio do qual se concretiza a redenção que é pela graça (Ef 2.9), como imputar ao homem participação crucial na salvação, assim como imputar a dois homens a responsabilidade pelo êxito no apertar de suas mãos, se nem a fé e nem a graça são produzidas pelo homem? Se não é real a ressurreição dos pecadores de sua morte efetivada apenas pela ação de Deus em ressuscitá-los, nada exigindo-os, face a inabilidade do morto de responder um sim por si, posto que está morto e sequer anseia viver, como seria possível ser real a ressurreição de lázaro, se ele em nada participou no milagre que culminou em sua ressurreição? Qual foi a sua participação no “vem para fora”? Da mesma forma, se nós éramos por natureza filhos da ira, mortos em delitos e pecados (Ef 2.2) e irreconciliáveis (2 Tm 3.3), em que sentido os mortos espirituais participaram efetivamente sobre a salvação, de modo a se auto-reviverem?

·         Se Deus não tivesse escancarado o coração de Lídia (At 16.14) a ouvir as palavras de Paulo a pregar, ela mais a frente, o faria mediante fé própria? Caso não se pregue com mansidão a palavra da verdade aos pecadores, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para crerem, a fim de que se desprendam das garras do diabo, onde estão presos (2 Tm 2.25), será possível que sem a palavra, tais pecadores conscientizar-se-ão de quão indignos eles o são para receberem o evangelho de Deus, e por essa razão, se adéquam moralmente e fertilizam o solo do seu coração, antes improdutivo à mensagem do Evangelho? Como?


Não proponho tais questionamentos como desafios inconsequentes. Não estou disposto a reduzir a palavra de Deus a uma guerrinha de guetos religiosos. Contudo, tal exposição é necessária. O motivo pelo qual insisto em dizer que o homem não pode por sua própria natureza buscar a Deus, não é para outro propósito senão para Exaltar a Deus, elevando- o em meu coração onde ele sempre, sempre estará, no céu, como Soberano, pronto a ressuscitar os perdidos, dando-lhes a vida, por meio da regeneração que só por ele o homem pode ter. Se o homem for grande, Deus não será sua dependência, e em momentos como esse, nem que Deus nos faça pastar como animais, ele nos fará compreender que a beleza incólume que envolve o nosso coração, originalmente pecaminoso, não é nossa, mas pertence A sua Majestosa e Soberana graça.

Graça e Paz
Mizael 



* "[...] Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus." (Jo 1.13)
[1] Charles Haddon Spurgeon. A Maior luta do mundo. São José dos Campos, SP. Editora Fiel. 2006.
[2]Termo extraído do livro A Soberania Banida. Eis um livro obrigatório, a ser lido tanto por aqueles que comungam de seus argumentos soteriológicos como pelos que desejam prosseguir em refutá-los. Para esses, este livro será um excelente teste para saberem se estão dispostos em continuar, com base em convicções bem sedimentadas.