15 de nov de 2010

Necessário vos é nascer de novo.

Compreender as coisas do espírito constitui-se numa impossível alçada ao ser natural, isso porque “[...] o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.” (1 Co 2.14).. A fé é um dom, o qual nós não podemos produzir, pois, “vem de Deus” (Ef 2.8). Ela é “dada aos santos” (Jd 3), e ela “vem pelo ouvir, e ouvir a palavra de Deus” (Rm 10.17) Se um morto espiritual olhar ao céu, em busca de Deus e ansiá-lo, assim como uma corça brama pelas correntes de águas límpidas (Sl 42.1), tão somente o fará pela força atrativa do convite de Cristo a chamá-lo: “... Vem para fora...” (Jo 11.43). A ação Soberana de Deus ao nosso favor, regenerando-nos e concedendo-nos à fé, nos porá ao chão, arrependidos de nossos pecados, e nos inclinará ao desejo de servi-lo, pela confiança em seu sacrifício substituto. E quando de pés pela graça que nos atrai para o reino do filho do se amor (Cl 1.13), odiaremos o que ele odeia (Pv 8.13) e amaremos os seus incomensuráveis deleites. Doravante prosseguiremos, sendo alvos de sua santa vontade, que operará em nós, tanto o querer servi-lo, como efetivará nossa piedosa servidão a Ele, forjando nosso caráter à semelhança de Cristo. A salvação não está sobre nossos ombros fracos, nossos pés oscilantes, corações inveteradamente perversos, e ânimos débeis, mas sim em sua Soberana e magnífica ação de salvar pecadores, e fazê-los trilhar em seus inescrutáveis caminhos, por meio de seus santos propósitos, para o louvor de sua imponente Glória. 

São vários os textos da Escritura que poderão ser evocados para se provar o comprometimento de Deus sobre aqueles a quem ele regenera. Deus “nos gerou de novo para uma viva esperança” (1 Pe 1.3); Nos “vivificou, estando vós mortos em ofensas e pecados,” (Ef 2.1); Nos “vivificou juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas,” (Cl 2.13); “Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em seu Filho.” (1 Jo 5.11); “Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude;” (2 Pe 1.3).  Tudo vem dele, de modo que, se estou agora vivo, sendo eu, por natureza, morto em meus delitos, isso devo a sua misericórdia, pois, “a tua palavra me vivificou” (Sl 119.50). Essa ação não é sinérgica, ou de iniciativa humana. Não é levada a efeito por Deus quando, na ânsia de ver o fruto do seu trabalho iniciado, partilha tal responsabilidade com a competência do homem, ainda sem Deus, como uma suposta capacidade de favorecer-se. Deus é aquele quem guia todo o processo. Ele opera em nós “tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.” (Fp 2.13). A Salvação é engenhosidade divina, obra das mãos do Deus que a orquestrou, e não meritoriedade humana. Em João 3, por meio de uma afirmação e um questionamento de Nicodemos, detectamos o que seria o nascedouro de duas correntes que se dizem favoráveis ao evangelho, mas na verdade negam-no em sua raiz, mormente quando o assunto do qual se procura argumentar ou dirimir suas dúvidas seja a Regeneração. Suas palavras deflagram contra o evangelho pelos meios pragmático e racional de se conceber a fé, ambos largamente entranhados na religiosidade de muitos que se dizem regenerados. 

Em João 3 somos presenteados por Deus com o magistral diálogo entre Jesus Cristo e Nicodemos. Este fariseu de nobre estirpe, à surdina da noite, distante dos olhares condenatórios, propõe em seu coração obter algumas informações com Jesus em resposta (ao que implicitamente percebemos no texto), a um dilema existencial que ora lhe acometia. Sabemos que posteriormente Nicodemos parece ter compreendido o assunto que anteriormente em João 3 ele indagara, pois o vemos em João 19 ladeado de José de Arimatéia cuidando do corpo de Jesus quando morto, e provendo ao seu cuidado o sepulcro e as necessárias especiarias aromáticas. Mas a despeito disso, no capítulo em voga, Nicodemos não havia compreendido algumas questões que julgamos ser fundantes a crença em Deus bem como em sua doutrina a nós provida por sua palavra. 

Nicodemos faz uma pergunta e um questionamento, (trataremos neste artigo apenas da pergunta) e para ambas obtém de Jesus a mesma resposta. Na primeira delas, ou ainda antes dela, ele busca tecer alguns elogios a Jesus. Não há nada de errado em suas palavras, porém parece-nos haver uma pitada de pragmatismo, ou ainda, um antropocentrismo enrustido em sua afirmação, em face da resposta que de pronto recebeu de Jesus:

“Este foi ter de noite com Jesus, e disse-lhe: Rabi, bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que tu fazes, se Deus não for com ele. Jesus respondeu, e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.” (João 3.2,3)

Em um primeiro momento, Nicodemos se apresenta a Jesus como alguém que nele “crê” em decorrência dos milagres por Jesus efetuados. Os milagres eram a rampa que guinava sua fé, supunha. Mas se pensou ele dessa forma, estava errado. O seu profícuo saber, pelo fato de ser um dos membros do Sinédrio, não lhe fora suficiente para que pudesse compreender a contento os passos que nos levam a um novo nascimento, e de fato, nenhum saber antecederá a ação do Espírito Santo em nós. Ele disse que Jesus de fato vinha de Deus, mas concebera equivocadamente que o fato dele obter tal conclusão, poderia quem sabe estreitar sua relação com Jesus, ou ainda como disse Donald Guthrie “A necessidade do novo nascimento desafiava o direito de Nicodemos de fazer uma avaliação de Jesus em uma esfera puramente humana” [1] .Jesus poderia ter relevado sua afirmação, classificando-a como uma ação primaria e oportunamente benéfica, por meio da qual, uma genuína conversão pudesse ser iniciada. Contudo, regeneração não é uma ação que é precedida de uma ação benemérita ou, simplesmente benéfica por parte daquele que é seu alvo, além do mais como corretamente dito por Matthew Henry “Não era suficiente que ele admirasse os milagres de Cristo, e reconhecesse sua missão, ele devia nascer de novo”[2]. Ainda Henry prossegue dizendo: “Nós não devemos pensar em remendar a antiga construção, mas em começar pela fundação” [3]. 

 Se uma boa ação não for resultante da regeneração, de modo a antecedê-la, de nada adiantará se valer daquilo que da própria regeneração não sobrevier. A regeneração não precisa de força propulsora para agir; Não depende de oportunidades pelas quais possa se valer o espírito Santo para que leve a cabo a conversão. O único campo propício a regeneração é uma vida morta em delitos e pecados, um irreconciliável e empedernido coração que não pode por si mesmo, buscar sua própria salvação. Precisa ser uma ovelha que se desgarra para que a iniquidade desta, em ter se distanciado de seu Senhor, caia sobre este, imputando-lhe a sua justiça (Is 53.6). Se Cristo julgou que sua afirmação merecesse a resposta que ele o deu, não podemos simplesmente desconsiderá-la enobrecendo a resposta de Jesus, ou dando valor a esta em detrimento da afirmação de Nicodemos. Se a resposta tem grande valor, então ela foi sim, majestosamente concebida por Jesus para contrastar com aquilo que carregava as palavras de Nicodemos, ou que, ela posteriormente, pudesse gerar nos corações que a lessem. Cristo diz que aquele que não nascer de novo, não poderá entrar no reino do céu. A afirmação de Nicodemos [Sei que és mestre vindo da parte de Deus] nada havia somado a sua regeneração. Ela não aparece no texto como uma evidência de seu achego ainda informe e paulatino a fé em Cristo. Não há nenhuma continuidade do pensamento de Nicodemos manifesto em sua afirmação, com pensamento de Jesus, senão uma descontinuidade entre eles, comprovando-nos de que sua afirmação não perpassava pelas categorias da regeneração, ou sequer era um indício desta em trabalho no seu interior. Cremos que Cristo o trouxe para si, naquela noite, mas, não para salvar alguém que já estava se salvando, senão, para fazê-lo compreender no que consiste o nascer de novo. Cristo lhe dissera em resposta a sua afirmação que ele precisava nascer de novo. Sei que a princípio suas palavras soam-nos como um forte indício à fé em cristo. Contudo, diante da declaração de Jesus que lhe era necessário nascer de novo, não vejo sob qual lógica, cristo dir-lhe-ia tamanha necessidade de nascer de novo, se a mesma já estivesse operando em seu coração. É possível ao ímpio dizer coisas boas, como lhe é igualmente possível este dar coisas boas a seus filhos (Lc 11.13)

Não é e nunca foi tempo de correspondermos a bajulação dos que se dizem simpatizar com fé que professamos, ou no mínimo, daqueles que se chegam em nosso reduto, e tão logo, são membrados a “fé”, pelo fato de se auto-prontificarem para serem cristãos. Mesmo que Nicodemos não estivesse revestido de tal propósito, ele não estava no caminho certo.  Necessário vos é nascer de novo é a máxima pela qual nós devemos nos apresentar ao mundo; é a semente a ser lançada diante do solo infértil. Eis uma máxima vitalmente necessária em nossa prédica. Não devemos reduzir a mensagem do evangelho, ou diluí-la com componentes que os nossos interlocutores desejem nela encontrar. Diante dos que procuram a igreja em busca de refugio, devemos pregar as verdades centrais da fé, as doutrinas da graça, pelas quais Deus fala aos pecadores. Pregar o evangelho não se constitui no quanto devemos ser diplomatas com os que nos ouvem abrandando seus corações com as bençãos efêmeras que temporizam o sorriso nos seus rostos, enquanto caminham para o inferno, ou o quanto devemos tornar o evangelho uma resposta a altura dos questionamentos feitos pelos ímpios.  O Evangelho não é equilatado pelos que dele precisam. Não deve ser entregue sob medida a um suposto crente quando se porta como cliente quando faz do cristianismo o berço que acalenta a sua dor, ou a chave que “abre a porta” da tão utopicamente desejada vida de ouro, ou ainda, a redoma de aço que lhe protege dos infortúnios que a todo homem debaixo do sol é acometido. O Evangelho não estará lhe trazendo resultados quando ainda sem a ação primeira do Espírito ele julgar tal mensagem palatável. Não importa se dizem ser simpatizante a figura de Cristo; antes devemos anunciar-lhes que lhes é necessário nascer de novo. Que não importa o que dizem, ou o que pensam já compreender, que se enclausurem em infindáveis campanhas, que se simpatizem a fé sem dela quererem professar, a ordem do Senhor Jesus aos que dele receberam a magnífica alçada de pregoeiros da verdade, não é outra palavra senão, lhe é necessário nascer de novo. 

O homem é morto em seus delitos e pecados, disposto a inexoravelmente restringir a sua vontade ao que brota de sua natureza pecaminosa. Sendo o homem corrupto, deste não fluirá nada senão a corrupção (2 Pe 2.19 – Gl 6.8). A menos que Deus vivifique o homem que nas trevas se encontra, tal homem continuará a satisfazer as concupiscências de sua própria carnalidade, infelicitando-o a condenação eterna. Diante dessa realidade, nada adiantará ao homem perdido, senão a mensagem na qual Deus se compromete em restaurar a sua natureza, habilitando-o a dizer o “sim” que sua natureza resiste em concedê-lo. Para Lázaro Jesus disse “vem para fora”. Não haveria outra ordem que Lázaro precisasse naquele momento, assim como não há outra mensagem da qual os pecadores necessitam senão a de que denuncia sua impiedade, convidando-os a nascerem de novo, por meio do arrependimento que em tempo oportuno, através de nossa mensagem, por Deus ser-lhes-ão concedido:

“Instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade,  e tornarem a despertar, desprendendo-se dos laços do diabo, em que à vontade dele estão presos.” (2 Tm 2.25,26)

Graça e Paz
Mizael Reis

[1] comentário Bíblico Vida Nova, p 1550.
[2] comentário Bíblico, Novo Testamento, p 774
[3] Ibid, p 774