13 de mai de 2011

Se Deus quer que todos os homens se arrependam, então temos um problema. Não, uma heresia.


Se existe uma questão discutida na teologia reformada cuja longevidade parece-nos não ter fim, é a conciliação que se procura fazer entre a redenção particular e o querer de Deus em desejar que todos os homens se arrependam e sejam salvos. Confesso que, só de escrever tal coisa, me envolve a clara convicção de que tal conciliação não me parece ser possível, posto que, a meu ver se contradizem claramente, ou ainda, faz com que o desejo e as palavras de Deus se contradigam. Sei que tal tema é de arquear as sobrancelhas, e sei que serão muito mais levantadas pela forma com a qual tratarei a questão. Contudo, muitos de nós vivemos com mistérios, os quais nós chamamos de paradoxos. A interpretação tradicional sustenta sua crença resignadamente admitindo humildemente o paradoxo da questão. Eu também admito certo grau de mistério na forma como eu, e alguns poucos teólogos enxergamos o problema proposto. Mas permanecerei crendo neste mistério do que render-me ao outro. Um direito que me assiste. Sei que para os reformados que discordam da crença de que Deus deseja que todos os homens se arrependam, essa visão é amplamente comprometedora, da qual fluem algumas outras inconsistências. Eu, porém, no presente artigo ater-me-ei a questão do inclusivismo.

Creio que se defendermos a crença de que Deus, embora eleja alguns da raça caída para salvação, deseja que todos os homens sem exceção sejam salvos, tal visão, a meu ver, desaguará em duas crenças, das quais uma antes era raramente defendida mas encontra terreno amplo atualmente, e a outra é defendida por um considerável número de reformados. A primeira é o inclusivismo que será tratado nessa primeira postagem, e a segunda é a expiação ilimitada que se opõe a redenção particular que será tratada em um artigo posterior.

Analisemos primeiramente o inclusivismo. Antes, uma sintética definição do inclusivismo se faz necessária. O inclusivismo diz que Deus salva pessoas por meio de Cristo, a sua revelação especial e tais pessoas constituem-se em povos cujas terras o evangelho já alcançou. Porém, existem pessoas, habitantes de terras nas quais o evangelho ainda não foi anunciado, e por essa razão, muitos têm morrido sem que pudessem ouvir a mensagem do evangelho. Deus, em sua infinita misericórdia, a fim de oportunizar a salvação a estes, provê outros meios além da revelação especial para salvá-los. Tais meios constituem-se em outras formas de se “crer em Deus” de uma forma “justa”, sincrética e moralmente conciliatória com o cristianismo. Assim o chamado “problema soteriológico do mal” é resolvido, respondendo a complexa [para alguns] pergunta que se segue: Como Deus salva os não evangelizados? O inclusivista responde: Por outros meios [religiões, natureza, conduta de ética semelhante a cristianismo], pois eles não conhecem a Cristo, e destiná-los ao inferno sem que antes possam ter tido a oportunidade de crer no verdadeiro Deus é no mínimo inconciliatório com a crença num Deus cuja natureza é amor. Por mais que para muitos, tal tema nada possa contribuir ou convergir para a discussão em apreço, analisemos a minha tese. Primeiro relembremos o versículo-chefe dessa discussão:

“Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor DEUS; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?” [Ezequiel 18.23]

Retoricamente Deus pergunta se porventura ele se compraz na morte do ímpio. Creio que a chave para compreendermos tal versículo está contida no verso 31:

“Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?” [ v.31]

A quem tal pergunta foi direcionada? A qual povo tal exortação foi estendida? A todos os povos? Evidente que não, mas à Israel somente. Agora reflitamos. Se Deus não deseja que o ímpio pereça, e se por ímpio entendermos todos os ímpios, indistintamente e sem exceção a povoarem o planeta - leve em conta os que povoavam o mundo no tempo dessa mensagem - a enumerar todos os ímpios da terra, e se entendermos assim, e interpretarmos a ocorrência dessa palavra, pela qual Deus demonstrou um desejo semelhante dessa forma, não haveria uma inconsistência em Deus, de querer a salvação de todos os ímpios, mas ao mesmo tempo, expressar tal desejo unicamente à Israel por meio da mensagem que só a eles foi transmitida?  Sabemos que no tempo que antecedeu a plenitude dos tempos, Deus ocultou sua graça a todos os povos, revelando-a seletivamente à Israel, e isso é o que entendemos por abrangência do evangelho do NT, em detrimento da seletividade da eleição no AT, onde nesta a salvação foi claramente restringida por Deus somente ao seu povo, Israel. Por essa razão não me admira o fato de, por exemplo, haver 159 ocorrências da palavra misericórdia somente nos salmos, quase sempre ditas e contidas numa súplica, e todas elas terem sido feitas por lábios israelitas, e não por povos por Deus rejeitados. Algumas passagens ajudam-nos a compreendermos a restritividade de Deus no AT, como o que se segue:

“Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranha às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo”. [Ef 2.12]

O texto acima é claro, ao ponto de distanciar-nos de quaisquer interpretações que não se alinhem à seguinte conclusão: Deus privou povos no AT de conhecerem o seu nome e por ele serem salvos.

Na verdade, existem passagens no AT, pelas quais Deus revelou-nos o seu desejo futuro de abrigar outros povos além, de Israel, ao grande reduto do evangelho, a ser revelado de igual modo no tempo futuro. À Israel Deus disse:

“O SENHOR não tomou prazer em vós, nem vos escolheu, porque a vossa multidão era mais do que a de todos os outros povos, pois vós éreis menos em número do que todos os povos;” [DT 7.7]

No Início do capítulo no qual o verso acima está incluído, Deus diz que dará as terras de nações estranhas ao seu povo escolhido. Deus ordena a destruição desses, tal como destruiu os homens em tempos diluvianos, valendo-se da mesma justiça que lhe compete. Em seguida, Deus fala-lhes sobre a eleição com a qual foram contemplados, e cuja qual as outras nações, chamadas por Deus de estranhas, não receberam. O que parece mais coerente dizer sobre o paradeiro dos que Deus não se revelou? Ou seja, qual foi o destino das nações as quais Deus não se propôs se revelar a elas? Salvação? Mas como poderíamos supor tal coisa, posto que, no NT Deus diz ter rejeitado tais nações, como se pode concluir no verso abaixo?

“Que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranha às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo”. [Ef 2.12]

Ou ainda, pelo texto abaixo:

“Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia” [1 Pe 2.10]

Essa é a magnitude do evangelho em relação o tempo da Lei. Neste, Deus resgatou pra si, um único povo, de uma única língua e raça, a fim de torná-lo sua propriedade, e por ela ser glorificado, acima e diante de outras nações, cada qual com seus respectivos deuses. É certo que Deus pregou a povos estranhos como a Nínive. Porém, isso se constitui, a meu ver, numa exceção de prerrogativa divina, da qual não podemos inferir uma regra. Pois a própria realidade a eximiria, bem como os versículos que a sustentam. Deus não quis salvar todos os povos antes do evangelho. Tal ato de misericórdia estava reservado, por Ele mesmo, para a revelação do evangelho. É fato que no tempo do AT Deus restringiu-se, decretatoriamente, a revelar-se somente a Israel, como se vê, claramente no texto abaixo:

“Porque és povo santo ao SENHOR teu Deus; e o SENHOR te escolheu, de todos os povos que há sobre a face da terra, para lhe seres o seu próprio povo.” [DT 14.2]

Ou pela pena de Amós: 

“De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto eu vos punirei por todas as vossas iniqüidades.” [Am 3.2]

Mesmo podendo recorrer a outros versículos, por meio dos quais tal conclusão se enrobusteceria mais e mais, atenho-me aqui, para fazer uma pergunta: Como Deus pode desejar a salvação de todos os homens, e, por conseguinte, não desejar a morte dos ímpios, e isso sem exceção, se Ele mesmo foi quem se propôs a revelar-se privadamente a Israel, e dele, resgatar o seu povo exclusivo? Como poderíamos conciliar a interpretação mais popular de Ezequiel 18.23 com o fato inconteste de que o próprio Deus não se revelou a todos os povos no antigo testamento, banindo-os a condenação? É como diz Paulo, tais povos [nós, gentios] eram sem Deus no mundo, e ele diz isso aos gentios, esclarecendo-os de que em tempos pregressos ao do evangelho, eles não tiveram a oportunidade que hoje gozam, de serem salvos. Isso porque Deus não quis, e nisso consiste a grandiosidade do tempo do evangelho em relação ao tempo da lei. Neste, Deus salvou um povo, de uma única língua e raça. Naquele, Deus pretende salvar muitos homens. Não apenas de um povo, mas de todo povo, de toda raça, tribo e língua. No AT, vemos uma promessa futura, na qual Deus promete aumentar as cercas que delimitam sua provisão misericordiosa às demais nações:

“E farei tremer todas as nações, e virão coisas preciosas de todas as nações, e encherei esta casa de glória, diz o SENHOR dos Exércitos.” [Ag 2.7]

“Todas as nações que fizeste virão e se prostrarão perante a tua face, Senhor, e glorificarão o teu nome.” [Sl 86.9]

Assim, compreendemos terminantemente a áurea promessa do derramamento do Espírito Santo, a ser derramado em todas as nações:

“E há de ser que, depois derramarei o meu Espírito sobre toda a carne, e vossos filhos e vossas filhas profetizarão, os vossos velhos terão sonhos, os vossos jovens terão visões.” [JL 2.28]
No evangelho, os salvos não são chamados de uma única nação, senão de todas as nações serão recolhidos e comporão o povo exclusivo de Deus.
Mediante a prova bíblica, tal verdade é irrefutável. As Escrituras são sobejamente claras. Foi Jesus quem disse que, a pregação do evangelho é estendida a todas as nações: “Mas importa que o evangelho seja primeiramente pregado entre todas as nações” [Mc 13.10] Os profetas, porém, em tempos de Israel foram revestidos por tal alçada mundialmente englobadora? Não, não foram. Senão vejamos: A palavra de Jeremias foi essa: “Ouvi a palavra que o SENHOR vos fala a vós, ó casa de Israel.” [Jr 10.1] A Missão de Ezequiel foi de igual modo restritiva à casa de Israel: “E dize ao rebelde, à casa de Israel: Assim diz o Senhor DEUS: Bastem-vos todas as vossas abominações, ó casa de Israel!” [Ez 44.6]. Amós não foi diferente: “Porque assim diz o SENHOR à casa de Israel: Buscai-me, e vivei.” [Am 5.4]. Por essas bases poderemos compreender por qual razão em “tempos passados [Deus] deixou andar todas as nações em seus próprios caminhos” [At 14.2]

Diante do que disse, não há possibilidade de sustentar a crença de que Deus deseja que todos os homens se salvem, visto que ele mesmo não quis que tal coisa acontecesse, a menos, e ai chego ao cerne da proposta do artigo, que se creia que Deus deseja que todos os homens sejam salvos, e para atingir tal propósito, ou ainda justificar tal querer, se creia que Deus provê meios diferentes para a sua salvação, meios que se somarão à mensagem da revelação especial, cuja qual muitos povos a desconhecem. Vejamos um exemplo. Das nações rejeitadas por Deus no AT, encontram-se os egípcios. A tenda da congregação não chegou até eles, eles não possuíam a arca, que simboliza a presença de Deus, e sequer entraram no templo da Glória de Deus, para nele o devotarem culto. Reflita nisso ao lado da leitura do texto chave da questão: 

“Desejaria eu, de qualquer maneira, a morte do ímpio? diz o Senhor DEUS; Não desejo antes que se converta dos seus caminhos, e viva?” [Ezequiel 18.23]

Esse texto compreende tal nação? O querer de Deus envolve-os? Se não, como Deus não deseja que o ímpio egípcio não morra, se a mensagem contida no texto acima, não lhes foi direcionada, senão aos Israelitas? Eles sequer souberam dessa mensagem. Sequer ouviram-na pelo profeta. Eram como diz Paulo “Sem Deus no mundo” [Ef 2.12]

A meu ver, a única solução para essa questão, embora a Escritura não a ratifique [Assim creio, por ser restritivista] é o inclusivismo. A única forma de afirmar que Deus deseja que todos os homens sejam salvos, será conciliar tal coisa com uma crença na qual Deus procure oportunizar a salvação a todos indistintamente e tal crença consiste no Inclusivismo. Isso não é universalismo. O universalismo é determinista, pois diz que Deus inevitavelmente salvará a todos. O inclusivismo, ao contrário, diz que Deus faz a salvação ser potencialmente possível a todos os povos, mesmo aos que estão além dos marcos do seu povo, havendo ainda a possibilidade de condenação. Mas ninguém será condenado, sem que antes não tenha tido a clara oportunidade dada por Deus de se converter. E essa é a única visão com a qual se poderá afirmar categoricamente que Deus não deseja que nenhum ímpio seja condenado ao inferno. Afirmar que Jesus é o único caminho que nos conduz a salvação, ao lado da afirmação de que Deus deseja que todos os homens sejam salvos, inclusive os que morreram sem terem sequer ouvido o nome de Jesus, nas terras onde, muitos ainda morrerão sob tal condição, é expor Deus a uma visão mais turva e nublada da qual se acarretará implicações ainda mais desastrosas. 

Concluindo, creio que a crença de que Deus deseja que todos os homens sem exceção se salvem redundará sem sombra de dúvida no Inclusivismo, a única linha teológica que afirma estar a salvação cabalmente ao alcance de todos os homens no mundo, e que sempre esteve, a  despeito da ausência de Jesus Cristo.

Na próxima postagem tratarei do tema e sua conexão inevitável com a expiação ilimitada.

Graça e Paz
Mizael Reis

23 de abr de 2011

Hinos Cristocêntricos X Hinos Antropocêntricos


Há algum tempo tenho percebido uma enorme inconsistência do louvor no culto da Igreja na qual congrego. Desde já advirto, sou assembleiano e esse artigo não surge como fruto de minha rejeição à Assembleia de Deus. Já passei do tempo infante, no qual costumava entrincheirar as denominações e diferenciá-las por meio das placas denominacionais que elas levantam, agigantando as triviais divergências que temos em detrimento da convergência que consiste no cerne da mensagem. Estou lá, não porque eu seja um veemente defensor do pentecostalismo confesso, e sim porque sou cristão e o seria em qualquer outra denominação protestante evangélica. Estou lá porque estou lá e ponto.

A liturgia do culto, regida pela tradição assembleiana, exige que os cultos sejam preludiados pelos belos hinos da harpa cristã. Até aqui não há problema. Muito pelo contrário. Os hinos da harpa são belos, cujas letras traduzem verdades bíblicas, ao ponto de que, se cantássemos tais letras com autenticidade e fervor eu não seria alvejado com o inquietante sentimento que me destinou a escrever esse artigo. O hino 169 por si só seria suficiente para embasar o que disse:

“Longe do Senhor andava, no caminho de horror, Nem minha alma desejava nem queria seu amor. Oh porque Jesus me ama, eu não posso explicar, Mas, a ti também te chama, Pois deseja te salvar!.."

Iniciamos nossa devoção comunitária por meio de hinos revestidos com letras fiéis ao evangelho. São hinos pelos quais nós enobrecemos a obra de Deus feita por nós. “Rude cruz se erigiu, Dela o dia fugiu, Como emblema de vergonha e dor; Mas contemplo esta cruz. Porque nela Jesus Deu a vida por mim, pecador.” [291]. Ou ainda, louvamos a Deus pelos meios da graça com os quais glorificamos a Deus quando neles participamos, “Alvo mais que a neve. Sim nesse sangue lavado, mais alvo que a neve serei” [39]. Quando louvamos a Deus com os hinos da harpa, parecemos ser um povo plenamente conhecedor dos mistérios de Deus revelados a nós pelo evangelho. Cantamos nossa depravação pecaminosa: “longe do senhor andava no caminho de horror” [169] “Oh quão cego andei e perdido vaguei, longe, longe do meu Salvador” [15]. Engrandecemos a Deus por sua intervenção graciosa e redentora, mediada por seu sangue: “Ele me abriu a porta, E me reconciliou, Por Seu sangue derramado; para Deus me consagrou” [456]. Existe outro do qual emerge uma verdade tão biblicamente centrada que parece não ser um hino regularmente cantado por uma Igreja cuja identidade cristocêntrica está gravemente comprometida: “Sim, eu amo a mensagem da cruz até morrer eu a vou proclamar; Levarei eu também minha cruz até por uma coroa trocar.” [291]. Hinos com os quais nos prostramos perante o evangelho da cruz: “Quando Deus, o Sangue vir, Que Jesus já verteu, Passará sem te ferir, No Egito assim sucedeu.” [255]. Faltar-me-ia espaço para examinar todos os hinos pelos quais a Assembleia de Deus diz engajar-se com um louvor centrado no evangelho, dentre os quais, o que se segue é muito cantado: “Deus amou de tal maneira Este mundo sofredor. Que à humanidade inteira, Deus Seu Filho para Salvador” [227], e também esse: “Tens tu lido a história da dura cruz, Na qual Jesus morreu, Desfazendo as trevas raiou a luz, Manando o sangue Seu? [350] E alguns dos quais escritos por puritanos como Issac watts, como o que se segue: “Ao ver morrer na rude cruz, Em dor e angústia meu Jesus, Compreendo ser um pecador, E meu orgulho sem valor” [540].

Existem também aqueles hinos com os quais Deus é adorado por sua grandeza, soberania e majestade, como esse: “Adorai o Rei do Universo! Terra e céus cantem o Seu louvor! Todo o ser no grande mar submerso Louve ao Dominador!” [124], ou esse: “Muito além do nosso entendimento, Alto mais que todo o pensamento, Glorioso em seu sublime intento, É o amor de Deus, sem par” [396].

São belos hinos com letras claramente esposadas nas Escrituras, revelando o temor daqueles homens que estiveram por trás de suas composições, registrando-os para Glória de Deus. Contudo, quando o culto se segue, o momento que sucede ao dos hinos da harpa nega-lhe por completo a essência destes, com hinos superficiais, ridículos, inescrupulosos, antropocêntricos, vazios das Escrituras, estritamente comprometidos com a experiência pessoal, e nada com o evangelho e a Glória de Deus. São hinos que enobrecem o ser humano, acalentando-o pelas lutas como se fossem deuses, explicando-o que é necessário passar por elas devido ao quanto ele é por si especial, razão pela qual Deus, o ator coadjuvante da história – que não o era, quando os hinos da harpa eram cantados - vai aparecer a qualquer momento para resolver todos os problemas para a gloria do homem. Hinos, se é que podemos chamá-los assim, que superestimam o que o homem pode fazer movido por uma compreensão tal, com a qual tais hinos estão comprometidos em fazê-lo entender, de que ele não nasceu para isso, subestimando o que Deus fez por nós, mesmo que tal doutrina costure as páginas das Escrituras, sem que haja espaço nelas para embasar essa saga humana, que consiste numa frenética corrida rumo à conquista, cujo topo não se vê Cristo.

São canções produzidas no forno do pragmatismo, escritas para atender aos cristãos cuja compreensão de vida restringe-se a benção e vitórias. São composições oportunistas, com as quais seus compositores buscam se adequar ao momento, indo de encontro às circunstancias de seus ouvintes, vitimando-os, sendo esses, imaturos demais ao ponto de não compreenderem as provações do ponto de vista do Evangelho, tornando-os seus fiéis seguidores. 

Com hinos dessa estirpe, os cultos são geralmente conduzidos por uma equivocada compreensão de devoção, invertendo as coisas, renunciando a Deus e seu evangelho, por um anseio descontrolado de ser mais do que é, de ter mais do que tem, de conquistar mais do que já possui, tão somente pela justificativa de que somos vencedores, sem que Aquele cuja vitória conquistou por nós na cruz, seja citado, fazendo-nos vencedores pelos nossos próprios esforços, tornando tal letra pertencente a qualquer crença, menos cristã.

Os “hinos” de grande parte dos cantores pentecostais sempre são comprometidos com a saga humana, e nunca com a história da redenção. O Evangelho que consiste na operação resgate efetuada por Deus é reduzido a caminhada do crente rumo à felicidade e à satisfação pessoal. Tais hinos, estrategicamente escritos, sempre iniciam com a situação na qual o homem foi confinado, complexando-o, preparando o terreno para o “show de promessas”; e o que se segue são deploráveis argumentos persuasivos pelos quais o cantor procura reanimá-lo ao lugar de vencedor e por fim fazê-lo compreender que ele nasceu é para vencer os seus gigantes e apropriar-se com autoridade de sua desejada vitória, que não consiste na justificação pela fé, revelada à nos pela graça.  

Submetendo tais hinos a uma séria avaliação, não nos parece haver algo de muito contraditório com os louvores que elencam no culto pentecostal?

Iniciamos com hinos cujas letras entronizam a obra de Deus e terminamos com canções que celebram e enobrecem a conquista e o esforço humano num contexto completamente estranho ao do evangelho, com guerras, gigantes, inimigos, lutas, banquete, ao invés de pecado, violação das leis de Deus, juízo, graça, sangue e redenção.

Com os hinos da harpa louvamos a Deus pelo que ele propôs fazer por nós, movido por sua misericórdia, hinos saturados das verdades bíblicas, nas quais não há espaço para méritos e aplicações humanas. São verdades que se concentram no ser de Deus e sua obra, não havendo lugar para correspondência humana, pela qual uma suposta participação de nossa parte pudesse ser vindicada por quem sabe uma segunda estrofe inventada e arremedada num belo hino, de cunho moralista e meritório.

Mas, de repente, da Glória e do louvor a Deus, decaímos no precipício da glória humana forjada no coração enganador [Jr 17.9], no qual os anseios do homem são sordidamente vertidos com letras vazias de Deus, e recheadas do logro fariseu que ruma ao templo na hora da oração, disposto a esbanjar sua intrínseca capacidade de fazer algo santo para facilitar as coisas para Deus [Lc 18.1-14]. Da história da redenção, cuja sina consiste no Cristo e Este crucificado [1 Co 2.1,2], muito bem cantada no prelúdio de nossos cultos, nos vemos agora, cantando músicas puramente mercantilistas, forjadas da pueril compreensão do “uma mão lava outra”, banindo Deus de sua proeminência, por meio de letras tão anti-bíblicas, ao ponto de não ser possível aceitar a triste e indigesta alegação de uma Igreja que diz louvar a Deus pela Glória da cruz, ao mesmo tempo em que se rende ao abominável pragmatismo, por meio do qual busca sua própria gloria e conquista! Se fosse possível de uma única fonte jorrar água doce e amarga, compreenderíamos, mas não é possível, tal como não é possível a um coração glorificar a obra de Deus ao mesmo tempo em que busca no trono Dele, um lugar para se sentar e acomodar sua autorretidão.

Tais hinos, por meio de uma completa indiferença ao que Cristo fez por nós, conclamam o crente a fazer algo por si mesmo, na ânsia de receber uma experiência pessoal como fruto do labor dispensado. Os que anseiam cantar tais hinos não se satisfazem em cantar a verdade das Escrituras. A História da redenção não lhes-é suficiente nem palatável, razão pela qual incendeiam seus cultos com um fogo estranho, por meio do qual enganam os incautos a se sentirem superespirituais, contudo, estes, frente às provações da vida, logo se desvanecem, denunciando-os, de que construíram sua casa sobre a areia e não sobre a verdade do Cristo, revelado nas Escrituras. Em consequencia dessa adulteração, a vida do cristão é descaracterizada da vida de Cristo, quem por nós sofreu, deixando-nos o exemplo e a promessa de que por ele e para sua Glória também sofreremos [2 Pe 2.21], para ser inutilmente igualada a uma vida de super-heróis, na qual, por motivos sempre errados e contrários ao evangelho, temos de vencer.

Não creio que cristãos têm cantado tais hinos manifestando, proporcionalmente, a mesma devoção entre eles. Se os hinos da harpa são cantados, refletindo genuinamente a fé que professam, não deveria haver espaço para hinos, cujo conteúdo e propósito contradizem a verdade que dizem crer. Em contrapartida, se os hinos mercantilistas são cantados, crendo em sua proposta e conteúdo, então dizer que nos seja possível alardear em outros cânticos verdades bíblicas, como a da Redenção é tentar maquiar uma hipocrisia percebida a distância. Não gostaria de justificar isso alegando que tais hinos verdadeiramente bíblicos foram compostos por homens que se distavam desse movimento novo que desentroniza Deus de sua obra, e os hinos mercantilistas nada são, senão a identidade de uma igreja mercantilista, embora isso seja  indiscutivelmente verdadeiro. Entretanto, sei que há servos de Deus que entendem a premente necessidade de abandonarmos esse culto a criatura e nos arrependermos de nossa rebelião. Não estou propondo um retorno à fé por uma solução paliativa, que seria apenas cantarmos hinos cristocêntricos. O que descrevi são efeitos de uma causa já abraçada. A solução não é simplesmente mudarmos a predileção de nossas canções, e sim nos arrependermos e crermos no evangelho, e os hinos serão consequencia de uma transformação genuína executada por Deus.

Essa triste verdade não pode ser escondida por alguém que nasceu nessa igreja, como eu. É triste ver cultos comprometidos com bençãos, campanhas, profetas que só sabem revelar mentiras, ao invés de se comprometerem com a verdade e com a Glória do Soberano Deus. O culto se transformou num momento de êxtase ao invés de uma devoção comunitária genuína pelo que Deus já fez por nós, resgatando-nos por sua graça, quando merecíamos ser condenados por sua justiça. Que Deus desperte seus servos dessa denominação do engano ao qual foram aprisionados, antes que a linha divisória entre o famigerado neo-pentecostalimo e os renovados, que já é tênue, inexista de uma vez por todas.

Graça e Paz
Mizael Reis






26 de mar de 2011

A perseverança dos santos e a prática contradizente de desdizer o que já foi dito.

Não são poucos os que desacreditam da maravilhosa doutrina da perseverança dos santos. Talvez, por uma espécie de síndrome da ética do devedor, da qual concluem que devemos tanto a Deus que a salvação não nos poderia ter alcançado tão “graciosamente”, muitos concluem que se repousa mais fortemente sobre nossos ombros a árdua tarefa de mantermo-nos salvos a fim de sermos finalmente salvos, e é por essa razão que não somos plenamente salvos e devemos manter o que pode ser perdido. Não sei como dizer isso de outra forma, mas, a meu ver, os que objetam a verdade de tal doutrina, resistindo as sobejas passagens pelas quais inequivocamente Deus diz salvar efetiva e eternamente os seus, responsabilizam-no, mesmo que sem querer, por dizer inconsistências, sustentando inverdades, que são encontradas em sua palavra, quando por meio dela mesma promete claramente algo que na visão de alguns não significa realmente o que ele quis dizer em determinada passagem – a nosso ver -  ou ao que se interpreta pelo que é claramente dito. Digo isso porque nas passagens das quais se extrai a doutrina da perseverança dos santos, Deus diz fazer determinada obra em prol da salvação para os quais ele quis redimir. Daí alguns reinterpretam tais declarações divinas, dando-lhes novos significados as suas promessas, tornando-o confuso, quase incompreensível. 

No desejo de ser puramente bíblico, analisemos alguns textos dos quais se conclui a salvação inalienável dos eleitos, e de contínuo constataremos que pessoas estão torcendo o que Deus claramente disse sobre os salvos a fim de invalidar uma doutrina com a qual não comungam.

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, Para uma herança incorruptível, incontaminável, e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós, que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo,” (1 Pe 1.3-5)

Por meio da pena petrina Deus nos diz que a salvação da qual fazemos parte fora nos dada como uma herança incorruptível. Ora, todas às vezes que tal palavra ocorre nas Escrituras ela tem o sentido de exprimir seu real significado, ou seja, que algo uma vez dito como incorruptível jamais poderá se corromper. Assim se sucederá na ressurreição dos salvos. Nós ressurgiremos e seremos transformados para vida. Deus há de eliminar a corruptibilidade de nossa efêmera vida mortal, revestindo-a de uma celestial e perene incorruptibilidade com a qual permaneceremos eternamente salvos e eternamente livres de uma possível corrupção. Da mesma forma, creio eu, quando em Pedro Deus qualifica nossa herança como incorruptível, pretende nos dizer que uma vez dada à nós tal salvação, a mesma não poderá ser perdida, nem usurpada de nós pelo que no mundo seja corruptível. Igualmente, Pedro nos diz que nossa salvação é incontaminável, ou seja, que não se pode contaminar. Ora, se caso nossa salvação nos pudesse ser tirada ou por nós perdida, onde estaria o sentido desta palavra quando relacionada a nossa salvação? Se for possível ao cristão genuinamente regenerado vir a perder-se totalmente ao ponto de que aquilo que um dia foi chamado de puro venha torna-se impuro, onde haverá congruência na ocorrência da palavra incontaminável ligada a natureza daquele que é passível de contaminar-se? Ainda, Pedro diz que nossa salvação não pode murchar. O inverno do pecado não pode murchar a flor de nossa eterna salvação! A luz de nossa salvação não perderá jamais seu fulgor frente às investidas do maligno. A viveza de nossa redenção não pode enrugar-se, isso porque estamos guardados em Deus para salvação. Assim, se nossa salvação puder ser corrompida pela nódoa do pecado a ponto de perder-se fatalmente; contaminar-se a ponto de perder a incontaminalidade prometida, se puder murchar ao ponto de perder sua beleza dantes inalienável, e se tal salvação puder ser roubada e perdida, mesma a tal sendo guardada por Deus na inviolabilidade celestial, então não vejo como compreender as palavras do texto sagrado, senão condicioná-las, segundo essa pueril compreensão, a condição de o cristão ser isso tudo se ele quiser ser isso tudo, imputando sobre o texto uma condicional que claramente não existe, esvaziando o sentido das palavras empregadas no texto, sob nenhuma justificativa plausível no texto, senão para tão somente discordar da perseverança dos santos.

“Com o fim de sermos para louvor da sua glória, nós os que primeiro esperamos em Cristo; Em quem também vós estais, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação; e, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa. O qual é o penhor da nossa herança, para redenção da possessão adquirida, para louvor da sua glória”. (Ef 1.13,14)

Somos salvos e por Deus selados com o Espírito Santo. O selo desde os tempos remotos era usado a fim de garantir a inviolabilidade do objeto selado, mantendo-o em sua genuinidade. Era uma proteção com a qual cartas e objetos seriam garantidos contra a falsidade investida contra o seu remetente. Assim, quando Paulo faz uso dessa palavra confortando-nos ao dizer que nosso selo é o Espírito Santo, procura garantir-nos que ao peregrinarmos nesse mundo rumo ao nosso destino, somos inviolavelmente posse daquele que nos selou. Somos de Jesus Cristo, o qual nos garante a chegada ao nosso destino, preservando-nos por meio do seu selo, O Espírito Santo. Se é possível que nós possamos nos perder, mesmo sendo selados com o Espírito Santo, não vejo qual o sentido de se valer de tal palavra, visto que nossa salvação a despeito do selo, não nos garanta que somos posse daqueles que nos marcou como sua herdade, passível de perda. Ainda o texto diz que o Espírito Santo que nos foi dado como um selo inalienável é o “penhor da nossa herança”. O que é um penhor? Um penhor é um objeto que garante o cumprimento da quitação de uma dívida. É o contrato do qual se espera do devedor o seu fiel cumprimento com o seu credor. O Espírito Santo fora nos dado como penhor na promessa de que Jesus cumprirá aquilo que pelo penhor tem garantido fazer.

“Mas Deus prova o seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira. Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela sua vida”. (Rm 5.8-10)

Os pecadores justificados foram salvos da ira destinada aos impiedosos. Deus nos amou e o seu amor o levou para o calvário por nós. O texto acima diz que, se alguém foi alvo da piedade do Eterno, sendo salvo pela obra redentora da cruz, o tal está liberto da ira de Deus a ser derramada sobre os ímpios, e isto é garantido pelo fato do texto certificar-nos de que, se alguém foi salvo agora muito mais o será a eternidade. Ou seja, se já fomos reconciliados na morte de Jesus Cristo, certamente que seremos mantidos a salvo na sua vida, e visto que ele vive para sempre, nós também para sempre viveremos. “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles.” (Hb 7.25) Em razão de sua vida, nós viveremos. E assim como ele jamais morrerá, nós seremos por sua eterna vida preservados e conservados para sempre. É por isso que a Escritura diz que fomos “chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo” (Jd 1.1)

“Para o que fui constituído pregador, e apóstolo, e doutor dos gentios. Por cuja causa padeço também isto, mas não me envergonho; porque eu sei em quem tenho crido, e estou certo de que é poderoso para guardar o meu depósito até àquele dia”. (2 Tm 1.12)

O que Paulo afirma aqui? É triste que passagens tão claras como essa  estejam sendo submetidas a diluição daqueles cujas mentes não desejam se comprometer como uma salvação tal que não se pode perder. Paulo está certo de que? A despeito das adversidades que constantemente lhe sobrevinham, apóstolo não titubeava, pelo que, a fim de mostrar-nos como tais adversidades se constituíram numa fraca inimiga tentando impedi-lo de caminhar, ele evoca sua fé naquele que é poderoso para guardá-lo, e transpondo as adversidades resultantes de seu apostolado e pregação entre os gentios, rumo aquele grande dia, ou seja, o de sua salvação.

"As evita os falatórios profanos, porque produzirão maior impiedade. E a palavra desses roerá como gangrena; entre os quais são Himeneu e Fileto; Os quais se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição era já feita, e perverteram a fé de alguns. Todavia o fundamento de Deus fica firme, tendo este selo: O Senhor conhece os que são seus, e qualquer que profere o nome de Cristo aparte-se da iniqüidade. Ora, numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra". (1 Tm 16-21)

Ora, se Deus conhece os que são seus e o apóstolo por meio dessa declaração distanciou as ações de Himineu e Fileto das ações de um crente fiel que possa de fato Deus conhecer, qual era o tipo de fé que os dois naufragaram? Seria a fé que possui aqueles a quem Deus conhece? Se for, qual então seria a lição de Paulo por meio do contraste feito entre os que naufragaram e os que não naufragarão mediante essa declaração, "Deus conhece os que são seus"?

A lição a se aprender das palavras de Paulo é que os que são conhecidos por Deus e os que proferem - fidedignamente - o nome de Cristo se apartarão da iniquidade, e não submergirão em perene queda como naufragaram, por exemplo, Himineu e Fileto. É o que nos diz o texto de João:

"E qualquer que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro". (1 Jo 3.3)

"Purifica-se" tem como objetivo neste texto explicar uma ação resultante do que é nascido de Deus. A palavra não é imperativa e sim conclusiva.

Deus conhece os que são seus. 

"A qual nenhum dos príncipes deste mundo conheceu; porque, se a conhecessem, nunca crucificariam ao Senhor da glória". (1 Co 1.12)

Quem conhece a Deus nunca crucificará ao senhor do Glória. Jamais se afastará definitivamente a ponto de perder-se fatal e irreversivelmente. Assim, os que são conhecidos por Deus não incorrerão nesse pecado, o de crucificar ao Senhor da Glória, por meio de uma incrédula e contumaz rejeição. O texto diz que aquele que conhece ao Senhor nunca seria capaz de crucificá-lo, e isso é facilmente interpretado pelo emprego da palavra “nunca” a qual quer dizer nada além de “jamais fazer isso”, jamais incorrer no erro dos príncipes deste mundo os quais nunca conheceram aquele ao qual estão crucificaram.

"Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos." (Rm 8.29)
Não há possibilidade de Deus esquecer-se daqueles que ele predestinou, visto que seu conhecimento foi soberanamente planejado a manifestar-se por meio de um plano que tem como objetivo final a glorificação. De quem? Daqueles cujos quais ele conheceu para serem conforme a imagem de Jesus Cristo:

E aos que predestinou a estes também chamou; e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também glorificou.” (Rm 8.30)

Não há possibilidade de que um crente predestinado, chamado e justificado possa, em um momento de sua vida perde-se totalmente e não galgar o último passo desse elo inseparável e inevitavelmente concretizado na vida dos que são de Deus.

"Deus não rejeitou o seu povo, que antes conheceu. Ou não sabeis o que a Escritura diz de Elias, como fala a Deus contra Israel, dizendo:” (Rm 11.2) - Deus não pode rejeitar àqueles que ele conheceu. Não que o faz por meio de coação frente à exigência daqueles pelos quais ele salvou e sim porque Ele quis que fosse assim. Se ele conheceu, é certo de que ele não lhes rejeitará, ele conheceu os 7000 que estavam na caverna, bem como conhece um remanescente provido segundo a eleição da graça e da mesma forma que livrou os profetas escondidos, igualmente livrará os seus da danação preparada para os que não se arrependerem.

"Pai, aqueles que me deste quero que, onde eu estiver, também eles estejam comigo, para que vejam a minha glória que me deste; porque tu me amaste antes da fundação do mundo." (Jo 17.24)

Como pode haver possibilidade de se perderem aqueles que estarão sempre com Jesus onde Ele estiver, O Jesus encarnado amado antes da fundação do mundo? Sob nenhuma hipótese uma vida salva por Deus perder-se-á, isso porque os que são conhecidos por Deus, o serão por toda a eternidade. Estarão para sempre no reduto de Deus tal como sempre Deus se fez neste eternamente presente.

"Pai justo, o mundo não te conheceu; mas eu te conheci, e estes conheceram que tu me enviaste a mim. E eu lhes fiz conhecer o teu nome, e lho farei conhecer mais, para que o amor com que me tens amado esteja neles, e eu neles esteja." (Jo 17.25,26)

Como haveria possibilidade de tamanha união ser dissolvida? 

"Para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. E eu dei-lhes a glória que a mim me deste, para que sejam um, como nós somos um" (Jo 17.21,22)

Aqui o Evangelista não poderia ter sido mais incisivo. Como tamanha aliança poderá ser quebrada? Ao Senhor Jesus ser-lhe-í-a possível desatar-lhe sua aliança com o Pai? Evidente que não. Eles são Um junto com o Espírito Santo. Pois então, assim como a união do Pai com o Filho é indissolúvel, tal o é e sempre será a união dos que pelo Pai foram dados a Jesus para conhecê-lo. É isso que diz o texto acima, eles serão um com Jesus, assim como Jesus é um com o Pai. Afirmar que há possibilidade de separação entre Jesus e os crentes verdadeiros, consistirá em afirmar que há possibilidade de separação naqueles cuja união foi citada no contexto com exemplo da união dos crentes com Cristo, a saber, Jesus e o Pai. O texto diz “assim sejam – unidos – como tu é Eu o somos – Jesus e o Pai.

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheço-as, e elas me seguem; E dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão. Meu Pai, que, mas deu, é maior do que todos; e ninguém pode arrebatá-las da mão de meu Pai. Eu e o Pai somos um.” (Jo 10.27-30)

Aqueles que são conhecidos por Jesus ouvem a sua voz, o seguem e jamais se perderão porque a indissolubilidade que acompanha a Trindade revelar-se-á também sobre aqueles que o Pai der a Jesus Cristo, e é por essa razão que Jesus conclui sua promessa mostrando-nos a união que há entre o Deus Trino, quando disse: “Eu e o Pai somos um”. Elas não hão de perecer disse Jesus. Contudo, a despeito dessa afirmação inquestionável há aqueles que por meio de uma interjeição – porém – abrem uma concessão que não existe no texto, por meio de uma conjunção adversativa que sequer existe no texto, do tipo “porém”, “entretanto”. Ou seja, dizem ser verdade o texto sobre os que fazem por onde para validá-lo em suas vidas. Os cristãos não perecerão se não perecerem. Eles não serão arrebatados, caso não permitam que o sejam. Contudo, essas exceções, relativizam o próprio poder do Pai, que no texto é razão de os crentes não se perderem. Eles estão guardados pelo poder do Pai que a todos é maior. A sua mão é forte para mantê-los. Abrir uma exceção sobre o destino imputado sobre os que foram salvos, significa a abrir exceção sobre a forte mão de Deus. Há algo que possa enfraquecê-la a ponto de que seus filhos lhe sejam tirados de seu regaço? Se há algo, a justificativa de Jesus, explicando por qual motivo não nos perderemos tornar-se-á fraca, pois é sujeita a circunstancias que a fraqueja.

Mas há alguns que não o conhecem, e os tais são os que nunca conheceram a Jesus e não alguns que o conhecendo foram desconhecidos por Jesus ali na frente.

“Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação.” (1 Co 1.21)

O mundo aqui conota os ímpios e os crentes consistem naqueles que serão salvos.  Na mesma conclusividade segue o texto abaixo:

“Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus. Por isso o mundo não nos conhece; porque não o conhece a ele.” (1 Jo 3.1)

Quem não conhece a Jesus não guarda sua palavra:

“E vós não o conheceis, mas eu conheço-o. E, se disser que o não conheço, serei mentiroso como vós; mas conheço-o e guardo a sua palavra.” (Jo 8.55)

A evidência a ser revelada naqueles aos quais o Pai conhece é que guardarão sua palavra e a evidência a ser revelada naqueles ditos quais Deus não conhece não guardarão a sua palavra. E por isso que João, ao lado da declaração do mestre nos alerta:

“Aquele que diz: Eu conheço-o, e não guarda os seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade.” (1 Jo 2.4)

Conhecer a Jesus implica em ser antes conhecido por ele,

“Mas agora, conhecendo a Deus, ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir?” (Gl 4.9) – Paulo exclama: Como vocês poderiam voltar aos rudimentos deste mundo se foram conhecidos por Deus na eternidade? (Ele exclama tal incoerência a não ser experimentada pelos que foram genuinamente conhecidos por Deus).
E todo aquele que é conhecido por Deus guarda os seus mandamentos e nele está a verdade. Assim, por meio desses versículos acima, afirmo: Existem os que por Deus são conhecidos, e esses são os que foram predestinados, desde a eternidade, a se apropriarem da salvação. Contudo, existem os que embora membrados em suas reuniões assemelhando-se como ovelhas de Cristo sorrateira e sutilmente no arraial dos santos, não passam de ímpios e de não-convertidos, e os tais, nunca foram conhecidos por Deus, muito embora se parecessem com um cristão. É o que pode ser entendido pelas palavras de Jesus abaixo:

“Porfiai por entrar pela porta estreita; porque eu vos digo que muitos procurarão entrar, e não poderão. Quando o pai de família se levantar e cerrar a porta, e começardes, de fora, a bater à porta, dizendo: Senhor, Senhor, abre-nos; e, respondendo ele, vos disser: Não sei de onde vós sois; Então começareis a dizer: Temos comido e bebido na tua presença, e tu tens ensinado nas nossas ruas. E ele vos responderá: Digo-vos que não sei de onde vós sois; apartai-vos de mim, vós todos os que praticais a iniqüidade. Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, e Isaque, e Jacó, e todos os profetas no reino de Deus, e vós lançados fora.” (Lc 13.24-28)

Há pessoas tentando entrar pela porta estreita sem submeter-se à ela. Estão entre nós, mas não são de nós. Porém, permanecerão entre nós, até que o Pai – Deus – por fim, feche a porta permanentemente, e dirá os falsos cristãos a verdade sobre suas vidas: “De onde sois vós? Não sei de onde sois vós”, em outras palavras, “não conheço você”, e ainda, eles sempre praticaram a iniquidade, muito embora se mostrassem por vezes, “interessados” para entrar na porta, na qual nunca lhes foi permitido entrar. Estes reprovados alegarão, vejam, alegarão que “comeram na presença do senhor – quem sabe uma alusão a ceia, comungada de forma indigna e infiel - e participaram do ensino bíblico na igreja. Eles participaram do símbolo da fé e da comunhão da fé sem serem genuinamente da fé, senão que eram membros locais da igreja, sem que fossem membros espirituais da Igreja de Cristo.

Ainda, sobre essa passagem, Mateus é mais incisivo e faz uso da palavra a qual nos é de grande interesse e valia na discussão em pauta:

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas. E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade”. (Mt 7.22,23)

Nem todo que diz “Senhor”, conforme nos diz o evangelista, são de Deus. Nem todos que estão entre nós se dizendo salvos são de fato salvos, a fim de que por meio da fé fraca e débil destes, que nestes, em algum momento se manifestará, se faça comparações banais visando comprometer uma visão de uma fé genuinamente dada e jamais retirada, alegando que por meio do abandono desses a fé que supostamente possuíam se possa concluir que um genuíno cristão pode perder a fé genuína. Esses que se dizem ser nada são, senão homens cujas vidas não foram transformadas, muito embora se passem como cristãos ao serem frequentes aos cultos e as funções da Igreja. E ainda simularão piedade quando frente ao Reto juiz alegarão vida santa. Eles dirão que profetizaram, expulsaram demônios, isso depois de Cristo ter dito aos seus que é por meio de contínua oração e jejum que os demônios serão expelidos, visando convergência, e alegarão terem feito maravilhas pelo nome de Jesus. Todas essas “defesas” se desmoronarão frente aquele cuja onisciência é infinita e serão reputadas como obras falaciosas e mentirosas, quando por meio de uma única declaração, Jesus levantar o tapete de seus corações e mostrar-lhes as suas sujeiras: “Nunca vos conheci”. É impossível que esses os quais Jesus disse nunca tê-los conhecido sejam alguns dos quais ele disse ter conhecido antes da fundação do mundo, isso porque nunca “ter conhecido”, não é a mesma coisa que dizer “ter conhecido um tempo e deixar de conhecer em outro”, e sim, que nunca foram de Deus, nunca foram salvos, nunca foram conhecidos desde a eternidade, isso porque os que são conhecidos por Deus, como tenho dito acima, praticam obras genuínas, mas, destes, porém, nada ficará de pé frente ao senhor Jesus, eles não possuem obras. Jesus não se comportaria com tamanha mentira – reverentemente falando – dizendo nunca ter conhecido alguém que ele já conheceu, quando estes antes de estarem ali prontos a serem condenados foram-lhes servos fiéis  em uma vida pregressa, mas que agora não são mais.
  • Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.” (Mt 7.23)
  • “Porque os que dantes conheceu também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.” (Rm 8.29)
Como os grupos dos dois textos acima podem corresponder às mesmas pessoas, visto que suas obras são e sempre serão diferentes e também sendo que um grupo Jesus NUNCA o conheceu e o outro foi conhecido desde a eternidade? Deus não pode mentir. 

Há outros inúmeros textos – se continuasse escrevendo o texto ficaria grande demais - que poderiam ser evocados e submetidos a uma análise por meio da qual concluiríamos o que já fora detectado, ou seja, que toda tentativa de refutar a doutrina da perseverança dos santos é quase sempre fundamentada sob um processo de desdizer o texto interpretando-o por meio de exceções que inexistem no texto. Sempre há um “se” alegam os contradizentes sobre aquilo que Deus diz efetivamente fazer. Que Deus possa nos livrar desse comportamento o qual não pode ser chamado de outra coisa, senão de adulteração da verdade. 

Graça e Paz
Mizael Reis

12 de mar de 2011

Misericórdia, Graça e Eleição

Definitivamente, nós não somos merecedores daquilo que Deus prometeu fazer, e fez por nós. Todos nós somos unânimes em concordar com a verdade inconteste de que somos salvos por Deus, quando poderíamos não termos sido salvos por Ele, caso Ele mesmo não se propusesse assim o fazer. Por essa razão, reputamos a sua forte mão toda a força, sobre a qual repousa todo engajamento e obra por vivermos quando merecíamos morrer.

Contudo, quando o diálogo sobre tamanha verdade se estende, emergindo as inevitáveis implicações que de tal doutrina emana, e que por meio da longevidade da reflexão concluímos algumas questões a mais, que decorrem por conseqüência dessa conclusão, alguns resistem em digerir algumas verdades. Verdades as quais claramente se defrontam com nosso desejo tolo e teimoso de sempre nos sentirmos cooperadores ativos, significativamente cruciais de nossa própria salvação. 

Creio que a misericórdia, a graça e a eleição estão orgânica e interdependentemente ligadas por uma ação inseparável, sem a qual todas não demonstrariam o que são de fato e se auto-excluiriam à parte da verdade. Falar da misericórdia divina significará tentar compreender o passo que antecede a ação graciosa de Deus, o qual bem pode seletivamente dispensá-la, visto ser ela, a graça, uma ação imerecida, soberanamente dispensada sobre homens cujas vidas mancharam-nas da culpa da qual se revestem todos os que são dignos do inferno. Mas vamos por partes. 

A misericórdia de Deus é bem discutida por nós. O texto abaixo faz com que tal manifestação divina elenque sobre as ações de Deus mais conhecidas:

“As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim;” (Lm 3.22)

O que nos impede de sermos consumidos é a misericórdia de Deus dispensada em nós a despeito do que somos e merecemos. Alguém já disse com razão que “A misericórdia manifesta-se quando Deus não nos dá o que nós merecemos”, ou seja, merecemos morrer, contudo, ainda vivemos. A razão pela qual o profeta diz ao povo que a única causa que se interpõe ao juízo condenatório de Deus é a misericórdia dEle próprio é porque não há nada em nós que faria o mesmo por nós, algo que por nós fosse produzido afim de que, por do qual a ira pudesse ser aplacada e a justiça cumprida,  e por consequencia, a misericórdia desvanecida, é claro. Isto é, se somos salvos não é porque no último momento no qual Deus nos desertaria perenemente ao inferno Ele encontra uma ínfima gotícula de verdade e retidão, isso porque há em nós tão somente um profundo poço de águas impuras e pecaminosas. Uma outra solução impraticável para que o culpado não seja condenado, é privar-se de fazer a ação que dantes cometera pela qual pudesse aquele ser levado à inocência, e isso evidentemente nos seria impossível realizar, isso porque quem poderia dizer: “Purifiquei o meu coração, limpo estou de meu pecado?” (Pv 20.9) Ninguém, porque “não há homem justo sobre a terra, que faça o bem, e nunca peque.” (Ec 7.20). Destituir-nos da culpa, consiste em destitui o ato misericordioso de favor benevolente unilateralmente dispensado sobre seu objeto indiferente, o qual insiste em desgarrar-se para o terreno do inimigo, imerecendo a vida, e merecendo a morte (Is 53.6). Dizer que Deus não nos poderia ter lançado no inferno, sem que antes nos oferecesse a oportunidade de sermos salvos, obrigando-o a dar-nos a sua salvação é despir sua benignidade para com o pecador quando decide não consumi-lo embora merecesse a danação eterna. Ou Deus é misericordioso por poupar o juízo sobre o pecador culpado, ou o pecador não é tão culpado assim a ponto de Deus tratar seus atos por meio de um atributo com o qual priva a divida ao devedor. Devemos nos juntar ao clamor de Jacó e com suas palavras entoar um cântico em coro:

“Não sou digno da menor de todas as tuas beneficências e de toda a fidelidade que tens usado para com teu servo” (Gn 32.10)

Se nós somos alvo de uma ação de Deus por meio da qual ele diz não nos sentenciar da forma e com o juízo que merecíamos, e se essa ação é provida e efetivada por nada em nós, senão por tudo em Deus, e se não temos o direito de exigi-lo que dispense tal ato misericordioso visto não merecê-lo, então não faria mal, nem incorreria em erros contrários à sua natureza justa, caso  optasse soberanamente por não nos poupar lançando-nos no inferno do qual nos livrou. Se caso objetarmos a essa hipotética, mas não sem  razão eterna, decisão de Deus que bem poderia, como disse, não nos poupar, estaremos consequentemente dizendo à Deus que Ele não faz  bem e em condenar a todos, esvaziando assim a misericórdia de seu ato condescendente quando nos livra da perdição. Dizer que Deus age com misericórdia em não nos condenar, é dizer que ele faria justiça em nos condenar. Dizer o contrário constitui-se em esvaziar o ato misericordioso e olvidar o ato de justiça, pois se ele não poderia  dar-nos o inferno, sem que antes desse-nos a oportunidade de dizermos que não queremos ir para lá, então não vejo por qual razão o tal ato em poupar o réu culpado dever-se-ia ser  caracterizado como misericordioso. 

Se isso é fato, como não considerar a ação que Deus não decidiu fazer, embora estivesse plena e soberanamente livre para decretar? Deus poderia condenar à todos, sem que à todos fosse dado um chance para serem salvos. O Dilúvio prova isso, quando em decorrência dos pecados dos homens que se avolumavam sobre a terra, tornando-a mais negra do que a própria escuridão, Deus por meio do martelo da justiça que lhe compete, disse: “Destruirei da face da terra o homem que criei” (Gn 6.7). Isso é justo, e a sanidade que possuímos, aliada ao temor a Deus que nos consome, impede-nos de replicarmos sua ação. Mas se deseja mudar a sorte do ímpio, que diremos pois? Dessa forma até que ao homem lhe seja por Deus estendido um livramento, somos culpados. Mas por quê? Porque é isso que se entende por intervenção misericordiosa, de não dar ao culpado a condenação que lhe compete como transgressor. Se não nos apresentamos ainda à Deus como gratos pelo fato dEle não ter dado à nós o que com nossos pecados fizemos por merecer, é a razão pela qual devemos o quanto antes nos prostrar perante a Deus e, tal como o salmista rendermos graças o Senhor por não levar em conta os pecados fartamente encontrados em nosso coração, tornando nosso saldo mais que devedor por meio do qual nos tornamos culpados, do qual deriva a  nossa condenação a qual Deus ousou não considerar no seu Eterno tribunal não dando cabo da vida do homem:

“Se tu, SENHOR, observares as iniqüidades, Senhor, quem subsistirá?” (Sl 130.3)

Quando não consideramos a verdade sob essa questão, despiremos o clamor do salmista quando declarou que as iniqüidades dos homens seriam a razão suficiente para todos inexistirem, caso Deus assim decidisse fazer. 
 
Não somos salvos pelo que fazemos, todos nós concordamos com a verdade dessa declaração. De igual modo concordamos que somos alvo da infinita misericórdia de Deus, não nos dando o que merecemos, privando-nos da punição meritória, da qual todo pecador é digno. A salvação não é fruto do quanto somos bons, mas apesar de sermos maus. Não flui de nossos méritos, mas apesar de nossos deméritos. A misericórdia não decorre de nada que possa haver em nós. Por meio dela é que Deus nos poupa da condenação e esta é que decorre de algo que há em nós, do pecado, com o qual tão obstinadamente nos afastamos do Senhor, trilhando descaminhos dos quais não flui a retidão. Se Deus por meio da misericórdia se antecipa ao juízo do qual somos merecedores, então devemos, humildemente nos calarmos, levarmos nossa mão à boca, prostrarmo-nos ante de seu ato soberano, pelo qual propôs a si mesmo não nos condenar e nos dar o que não merecíamos. Assim, concluímos que o que quer que Deus faça com suas criaturas, deverá fazê-lo sem que seja contraditado, pois lembre-se, são vidas cujas almas são dignas do fogo do inferno. Contudo, muitas dessas vidas lá não estarão. Ao contrário, alguns dos tais povoarão os céus. Oh maravilhosa graça! Há  uma relação inevitável de consequencia entre a misericórdia, a graça e a eleição. A causa de não estarmos no inferno é a misericórdia; A causa de não estarmos agora desfrutando do juízo que convinha ao nosso erro é a ação divina que só à Ele pertence e depende, de soberanamente decidir não condenar o réu culpado. Não há nada em nós, que por meio de uma explicação lógica e engenhosamente racional construída pela qual poderemos explicar por quais motivos não estamos onde deveríamos e sim estamos onde não deveríamos estar, sem que não redundemos nossa conclusão a Graça de Deus. 

Sempre afirmamos, sem titubear aos nossos irmãos que estamos melhores do que merecemos. Ora, se nós estamos melhores do que merecemos é porque temos o que não merecíamos ter. A isso se chama graça. Ação unilateralmente divina pela qual Deus, após misericordiosamente tirar-nos da condenação meritória, eleva-nos a salvação imerecida. Se formos dignos do inferno, consequentemente não merecemos a vida eterna. Se por nossas obras caminhamos para o inferno, com elas logicamente não poderíamos estar trilhando no caminho rumo ao céu merecendo-o. Se não podemos andar no caminho que conduz a vida Eterna por nós mesmos, e se para lá, alguns estejam caminhando, é sinal de que, a despeito de nossa inabilidade, algo em nós opera a justiça necessária com a qual cumpriremos o propósito da sina divina, e isso mesmo Ele prometeu, pois “ensinará o caminho aos pecadores”. (Sl 25.8) É como disse o Dr. John Evans: “Os pecadores merecem o inferno, mas os justos não merecem o céu”. Se a misericórdia não nos dá o que merecemos a graça, completando-a, nos dá o que não merecemos. Nada de nós precede a graça preludiando-a, isso porque “se é por graça, já não é pelas obras; de outra maneira, a graça já não é graça. Se, porém, é pelas obras, já não é mais graça; de outra maneira a obra já não é obra”. ( 11.6). Onde a graça não há prêmio, nem logro. Não há dever que a obrigue ser dispensada aqui ou ali. Por essa razão, o único ato que antecede a graça, não pode ser humano e sim, tal qual a graça é, divino. O ato que antecede a graça de Deus é a misericórdia Dele próprio. Sim, porque é a misericórdia que coroa a graça com sua natureza benevolente. A misericórdia pune a ovelha desgarrada como desertora, e a graça lhe abriga novamente, a despeito de sua deserção. A misericórdia enobrece a graça tornando-a imerecedora a qual ninguém lhe poderá inquirir. Assim como ao culpado não lhe é digno rogar a inocência frente às sobejas evidências que lhe culpam, assim também o pecador não poderá fazer-se de rogado ante graça, pelo que é culpado, mas se é agora livre não deve olhar para si em busca de respostas pelas quais possa chegar ao motivo pelo qual foi perdoado. É a graça. Somos “justificados gratuitamente pela sua graça” (Rm 3.24). E por ela que “nos fez agradáveis a si no Amado” (Ef 1.6), do contrário nos apresentaríamos desagradáveis à ele, pelo que  a condenação seria sentenciada. A salvação é “segundo as riquezas da sua graça.” (f 1.7), e não segundo a falsa justiça humana, isso porque a miserabilidade de nossa culpa nos impede de aflorarmo-nos em jactância. Bem, se a graça é dada a nós como prova do amor de Deus, bem como da misericórdia com a qual livra-nos de nosso próprio infortúnio, seria razoável então concluir que, se caso Deus quisesse dispensar essa salvação sobre alguns condenados, e não sobre todos condenados, seria justo? Se for justo então é coerente crer que a eleição é producente com a misericórdia e a graça, e nada nela contraditaria a justiça de Deus. Se não for, qual homem seria capaz de justificar uma salvação dispensada sobre todos se todos são condenados? Se há culpa, como advogar inocência? Se não são inocentes e sim culpados, por qual razão não haveria de ser justo prover somente a alguns a salvação que sequer um de todos os homens merece? Parece-me uma objeção insustentável. Se assim é, por qual razão não crer na eleição soberana e incondicional fartamente pregada na Escrituras? O que justifica o malabarismo filosófico dos que objetam tal verdade bíblica com seu humanismo? Sendo bíblico, então porque não crer? Sendo justo, então porque olvidar? 

Sobre Israel Deus disse: “De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido” (Am 3.2)

O que dizer sobre as nações que Deus não conheceu? Não são culpadas? Se as tais são, não há nada a ser dito, ou há? Se há o que haveria de ser dito? Que não mereciam o juízo o qual Deus as sentenciou?  Quem pode dizer isso? Que merecem a graça divina? Mas isso não seria contraditório, graça que se merecesse?

Atente-se para o texto abaixo do qual compreendemos a eleição de Israel:

“O Deus deste povo de Israel escolheu os nossos pais, e exaltou o povo, sendo eles estrangeiros na terra do Egito, de onde os tirou com braço poderoso, e suportou-lhes os maus costumes no deserto por espaço de quase quarenta anos; e, havendo destruído as sete nações na terra de Canaã, deu-lhes o território delas por herança durante cerca de quatrocentos e cinquenta anos.” (At 13.18,19)

Deus baniu sete nações, destruiu-as a fim de dar as suas terras à afortunada Israel. Parece justo? Essa pergunta não pode ser respondida, visto que não temos a justiça pela qual se poderia fazer tal avaliação. “Ao Senhor pertence a salvação” (Jn 2.9), e ponto! É com tal resignação que Paulo retoricamente pergunta “E que direis, se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que de antemão preparou para a glória, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios? (Rm 9.22-24). Que direis? Em outras palavras “o que pode ser dito se Deus assim o faz?”Ou mais acima Paulo objeta: “Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum.” (Rm 9.14). Não há nada a ser dito, senão crido, pois a Deus pertence agir da forma como lhe aprouver com aqueles cujas vidas são pecaminosas, pelas quais nada merecem. Contudo, mesma frente os argumentos de Paulo por meio dos quais deve-se ver o próprio Deus falando, há alguns que resistem em compreender tal verdade bíblica e teimosamente lhe fazem oposição. Agiram assim contra Paulo: “Dir-me-ás então: Por que se queixa ele ainda? Porquanto, quem tem resistido à sua vontade?”(v.19), ou seja, porque Deus nos culpa, se ninguém pode resistir-lhe quando deseja agir? Essa é uma objeção que até hoje tem sido feita contra a eleição soberana de Deus. Muitos buscam construir argumentos bem articulados, pelos quais até a mente sensata e puramente racional a ele possa se curvar, alegam. Contudo, por mais que possamos nos valer de alguns desses argumentos e ilustrações, a melhor resposta a essa indagação ainda é e sempre será a que pelo Espírito Santo fluiu e flui da pena de Paulo: 
“Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro poder sobre o barro, para da mesma massa fazer um vaso para honra e outro para desonra? (Rm 9.20,21). 

A resposta mais plausível e sóbria é: Não discuta com Deus. Não busque compreendê-lo para que ele tenha a sua concessão para agir. O “Filho vivifica aqueles que quer.” (Jo 5.21) e o “O que a sua alma quiser, isso fará.” (Jó 23.13)

Seria conciliatório com a natureza de Deus, ele se proclamar como bom, destruindo alguém? Parece justo ser bom quando age de uma forma que para muitos seria um ato contrário a toda bondade? Visto que não há nenhum bom nesse mundo para avaliar esse questionamento por si próprio, recorramos as Escrituras nas quais sim, vemos a resposta daquele que é infinitamente justo e bom:

“O que feriu o Egito nos seus primogênitos; porque a sua benignidade dura para sempre. E tirou a Israel do meio deles; porque a sua benignidade dura para sempre;” (Sl 136.10,11)

Vemos aqui Deus sendo devotado pelo salmista como aquele cuja benignidade dura para sempre. E essa ação divina para o salmista se faz demonstrar quando Deus fere um povo para libertação de outro. Deus é crido como bom por destruir os egípcios em razão de sua benignidade para com os Israelitas. E se caso um israelita na ocasião, - cogitemos - em resposta a uma pergunta feita a ele de um egípcio do porque de sua destruição lhe dissesse: “Isso está acontecendo porque a benignidade de Deus dura para sempre”. Mas benignidade sobre quem? Aos israelitas e não aos egípcios, essa seria uma resposta não só tolerável como inquestionavelmente bíblica. 

Assim, tal como nos tempos de, e com Israel “também agora neste tempo ficou um remanescente, segundo a eleição da graça.” (Rm 11.5) Deus “nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Ef 1.4) E quem são esses que por Deus foram feitos eleitos? Esses são os que estavam “mortos em ofensas e pecados” junto com todos os que ainda estão mortos. (Ef 2.1). “Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também.” (v 3). Portanto, se os que serão salvos são os que eram filhos da ira, não há espaço para vanglória isso porque “foi Ele que nos fez, e não nós a nós mesmos; somos povo seu e ovelhas do seu pasto” (Sl 100.3), e entre os que serão condenados, não há espaço para inquirição, nem inocência, pois também são vistos por Deus como “filhos da ira”.

Aos que Deus salva não resta nada a dizer sobre eles senão que “Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o SENHOR, e o povo ao qual escolheu para sua herança.” (Sl 33.12)

Graça e Paz
Mizael Reis